Uma visão do
mundo baseada em Fátima

Este artigo, transcrição de
um discurso proferido em Outubro de1999, na Conferência sobre
Fátima para a Paz no Mundo em 2000, ajuda-nos a compreender melhor tudo
o que antecede e rodeia o Segredo de Fátima na sua totalidade. Por John Vennari Hoje, 13 de Outubro de 1999, é o
82º aniversário do Milagre do Sol, ocorrido em Fátima a 13
de Outubro de 1917. Este milagre foi predito três meses antes, a 13 de
Julho de 1917. Na aparição desse dia, a pastorinha Lúcia
perguntou a Nossa Senhora: «Eu queria pedir-Lhe para nos dizer
Quem é, e para fazer um milagre com que todos acreditem que
Vossemecê nos aparece.» Nossa Senhora respondeu:
«Continuem a vir aqui todos os
meses. Em Outubro direi Quem sou e o que quero, e farei um milagre que todos
hão-de ver para acreditar.»
E a 13 de Outubro de 1917 faz hoje
82 anos 70 mil pessoas testemunharam o grande Milagre do Sol. 70 mil
pessoas viram o sol dançar no céu, e precipitar-se de repente
sobre a terra. Essas testemunhas, entre elas o Ti Marto, pai da Jacinta [e do
Francisco], disseram-nos ter ficado cheias de terror. Contou ele: «O sol
... começou a dançar até que por fim pareceu que se
soltasse do Céu e viesse para cima da gente. Foi um momento
terrível!» Segundo essas mesmas testemunhas, o Milagre durou cerca
de 8 minutos. E depois de o sol «ter voltado para o seu lugar no
céu», o chão, que antes do Milagre estava completamente
encharcado devido às chuvas torrenciais que caíram durante toda a
noite, ficou seco. Do mesmo modo, as roupas de todos aqueles que, à
chuva, ali tinham esperado toda a manhã pelo Milagre estavam
completamente secas.
Durante o grande Milagre do Sol
dizem as testemunhas podia-se olhar directamente para o sol sem que ele
as cegasse ou de qualquer modo lhes ferisse a vista.  «Em Portugal conservar-se-á
sempre o dogma da Fé». Nestas palavras de Nossa Senhora pode
ver-se uma prova da luz da Fé e da devoção dos Portugueses
a Nossa Senhora de Fátima. Nossa Senhora operou para nós no
século XX um dos mais espantosos milagres de todos os tempos: um milagre
público, anunciado três meses antes e testemunhado por 70 mil
pessoas milagre esse que chegou mesmo a ser notícia num jornal
liberal, anticlerical e maçónico da época, O
Século. A notícia, publicada a 15 de Outubro
de 1917, dizia: «... vê-se toda a imensa
multidão voltar-se para o sol, que se mostra liberto de nuvens, no
zénite. O astro lembra uma placa de prata fosca e é
possível fitar-lhe o disco sem o mínimo esforço.
Não queima, não cega. Dir-se-ia estar-se realizando um eclipse.
Mas eis que um alarido colossal se levanta, e aos espectadores que se encontram
mais perto se ouve gritar: Milagre, milagre! Maravilha, maravilha! Aos
olhos deslumbrados daquele povo, cuja atitude nos transporta aos tempos
bíblicos e que, pálido de assombro, com a cabeça
descoberta, encara o azul, o sol tremeu, o sol teve nunca vistos movimentos
bruscos, fora de todas as leis cósmicas, o sol bailou, segundo a
típica expressão dos camponeses.»
Foi este, de longe, o mais espantoso milagre público que o Céu operou, desde que Nosso Senhor fundou a
Sua única e verdadeira Igreja Católica.
Assim, penso que a grandeza deste milagre
corresponde à grandeza e à importância da Mensagem que
Nossa Senhora nos deu em Fátima. E tal como este milagre em
especial com o sol a dançar no céu e, de repente, a precipitar-se
sobre a terra que, de tão espectacular, tornava impossível
que os olhos dele se desviassem, a Mensagem de Fátima tem em si
própria uma tal magnitude, e uma tão grande importância e
centralidade que eu creio que, por meio deste Milagre, Nossa Senhora
estava a dizer-nos que não devemos afastar nunca mas mesmo nunca
o nosso olhar de Fátima, que nunca devemos afastar o nosso olhar
da Sua Mensagem, e que não poderemos nunca permitir-nos qualquer
distracção, seja ela qual for, em relação à
Mensagem da Virgem Santíssima. É por isso que esta
comunicação tem por título "Uma visão do mundo
baseada em Fátima". Nossa Senhora desceu a Fátima nos
princípios do século XX, um dos mais paganizados de todos os
séculos. O mundo está agora mergulhado não num simples
paganismo, mas num paganismo pós-Cristão, que é
muitíssimo pior do que o paganismo pré-Cristão. O
paganismo pré-Cristão não tinha ainda ouvido falar de
Cristo; mas o paganismo pós-Cristão ouviu a Mensagem de Cristo e
rejeitou-O, a Ele e à Sua una e verdadeira Igreja. Como vemos, é
um estado bem pior do que o do antigo paganismo, que era ignorante e nada
conhecia de Jesus Cristo. A Mensagem de Fátima deve ser o
centro da vivência do nosso Catolicismo, o centro do modo como vemos o
mundo. Eu acredito que tudo o que Nossa Senhora manifestou em Fátima nos
mostra que devemos basear a nossa visão do mundo na Mensagem de
Fátima e não em coisa alguma que, de qualquer modo, a
possa contradizer. Eu acentuo propositadamente este aspecto
porque, para muitos, a devoção a Nossa Senhora de Fátima
não assume um lugar central, sendo muitas vezes relegada para uma
posição lateral e periférica. Seria algo semelhante
à devoção a S.ta Rita de Cássia, a S. Judas Tadeu,
ou à devoção a Santo António. Embora considerada
uma prática muito boa e um auxílio para a nossa vida espiritual,
seria apenas um extra mais uma devoção
possível mas lateral, e cuja importância, apenas
secundária, não é levada suficientemente a sério.
As visitas de Nossa Senhora a Fátima
deram-nos os fundamentos para uma completa visão do mundo uma
visão do mundo que não passa de moda nem se desactualiza. E uma
tal visão do mundo, baseada na Mensagem de Fátima, nunca pode vir
a ser "actualizada", de modo a significar algo diferente daquilo que, desde o
primeiro momento, significou; nem pode ser rebaixada na sua realidade, nem
mudada ou eclipsada pela superstição do aggiornamento.
Nada do que aconteceu neste século poderá alguma vez obscurecer a
importância da Mensagem que Nossa Senhora transmitiu em
Fátima. E a Mensagem de Fátima não
é senão uma reafirmação urgente dos ensinamentos da
tradição da Igreja, e uma reafirmação da urgente
necessidade de reparação o que tem
implicações especiais no nosso tempo. A Mensagem de Fátimalivra-nos dos slogans que nos metem na cabeça A Verdade tem uma qualidade libertadora.
Foi Nosso Senhor que o disse: «a Verdade te libertará». E a Mensagem de Fátima livra-nos de
cair na falsidade de tantos slogans vazios, tantas vezes repetidos hoje
em dia. Livra-nos de aderir ao slogan de que as Nações
Unidas (de princípios ateus) são "a última grande
esperança de Paz para a humanidade". Livra-nos de cair naquele outro que
diz que estamos agora a entrar numa "nova Primavera" com o advento do novo
milénio. Livra-nos de acreditar no slogan de que estamos agora no
limiar de uma espécie de nova "civilização do amor", na
qual tanto os Católicos como os membros de falsas religiões podem
esbater as diferenças entre si, para trabalharem juntos na
construção de um mundo melhor. (É curioso recordar que, na
realidade, esta noção de que Católicos e
não-Católicos poderiam unir-se para construirem uma
espécie de nova "civilização do amor" já tinha sido
condenada pelo Papa S. Pio X, quando condenou o movimento Sillon,
surgido em França em 1910). Devemos também frisar que, de ambas
as expressões, tão vulgarizadas "uma nova Primavera" e
"uma civilização do amor" , nem uma só
contém qualquer menção ao Imaculado
Coração de Maria. Ora, na realidade, Nossa Senhora prometeu, em
Fátima, uma grande vitória; mas nunca lhe chamou "nova
Primavera", nem nunca lhe chamou "civilização do amor".
Chamou-lhe, sim, «O triunfo do Meu Imaculado
Coração». Nossa Senhora trouxe a Fátima a
seguinte Mensagem: «Deus quer estabelecer no mundo a
devoção ao Meu Imaculado Coração». Logo,
não pode haver nenhuma vitória, não pode haver nenhuma
"nova Primavera" sem que um considerável número de
Católicos corresponda fervorosamente aos pedidos de Nossa Senhora de
Fátima. E este é que tem de ser o nosso centro de gravidade. Façamos agora uma rápida
revisão dos Seus pedidos. Em Fátima, Nossa Senhora pediu-nos
para:
- rezar pelo menos um Terço todos os dias;
- usar o Escapulário castanho;
- oferecer a Deus os nossos deveres de cada dia, como um
acto de sacrifício;
- fazer os Cinco Primeiros Sábados, em
reparação das ofensas cometidas contra o Seu Imaculado
Coração;
- Nossa Senhora pediu também que o Santo Padre, em
união com todos os Bispos do mundo, fizesse a Consagração
da Rússia ao Seu Imaculado Coração, prometendo que, deste
modo, a Rússia se converteria e que seria concedido ao mundo algum tempo
de Paz.
Ora esta Consagração ainda não foi
feita, e tem de vir a ser realizada. O meu pequeno testemunho no sentido de demonstrar que a
Rússia não foi consagrada nem se converteu vem de um pequeno
artigo que saiu no jornal canadiano Toronto Sun a 9 de Agosto de 1999, e
que noticiava que Larry Flynt, o conhecido "rei da pornografia", acabava de
lançar em Moscovo a versão em língua russa da revista
Hustler. Ora bem: para todos aqueles que não saibam do que se
trata, basta dizer que a Hustler é uma das revistas mais
pornográficas tanto pelas palavras como pelas imagens dos
Estados Unidos. Trata-se de uma indústria que envolve milhões de
dólares e que tem uma enorme circulação. Larry Flynt
gabou-se de ter enviado uma assinatura gratuita desta revista a cada um dos
membros do parlamento russo. Ora isto foi 15 anos depois da
Consagração de 1984, uma Consagração que
não mencionava a Rússia pelo seu nome, tal como
Nossa Senhora tinha pedido. Se já então vivêssemos o Triunfo do
Imaculado Coração de Maria, Larry Flint não teria podido
fazer tal coisa impunemente! Observância e respeito pela
Tradição da Igreja Quero, portanto, explicar porque é
que a Mensagem de Nossa Senhora de Fátima tem de ser o centro da nossa
visão do mundo. Em primeiro lugar, o que torna a Mensagem de Fátima
eminentemente credível é o facto de Nossa Senhora ter aí
demonstrado um profundo respeito pelos consistentes e imutáveis
ensinamentos da Igreja através dos séculos. Quando Nossa Senhora
desceu a Fátima, não veio trazer-nos uma doutrina nova, nem nos
deu um modo de compreender os ensinamentos da Igreja Católica que fosse
diferente dos sólidos ensinamentos pregados durante séculos.
Disse S. Paulo: «Mas se alguém de entre nós, ou mesmo um
anjo do Céu, vos pregarem um Evangelho diferente daquele que vos
pregámos, que esse seja anátema.» (Epíst. aos
Gálatas, 1: 8). E Nossa Senhora seguiu estas sagradas
directrizes. Não apenas observou com a mais profunda reverência
tudo quanto a Igreja desde sempre ensinou, com as mesmas frases e os mesmos
sentidos (eadem sententia eodem sensu), como ainda reforçou
certas doutrinas e orientações-chave. E as doutrinas e orientações
que Nossa Senhora reforçou podem dar-nos uma pista em
relação àquelas doutrinas que viriam a ser mais atacadas
nos nossos tempos. Nossa Senhora no plano da
Salvação Antes de mais nada, a Mensagem de Nossa
Senhora de Fátima reforça a importância da
Santíssima Virgem no plano da Salvação. Através da Mensagem sabemos que a
salvação do mundo, a conversão da Rússia e a Paz no
mundo dependem em última instância da correspondência, por
parte da humanidade, ao desejo de Deus de estabelecer no mundo a
devoção ao Coração Imaculado de Sua Mãe
Santíssima. A centralidade e a importância de Nossa Senhora ficam
bem salientadas nas aparições de Fátima. É certo que um bom Mariologista
poderia falar um dia inteiro sobre o modo como Nossa Senhora é o centro
do plano da Salvação. Quanto a mim, quero apenas focar um aspecto
desta verdade e que é o seguinte: a Santíssima Virgem era
absolutamente necessária para que Jesus Cristo se tornasse um homem ou,
dizendo melhor, o «Filho do Homem». É que Deus, embora sendo
Todo-Poderoso, não poderia pertencer à raça humana sem
Maria; não poderia tornar-se o «Filho do Homem» sem Nossa
Senhora. Não sou só eu que o digo;
afirmou-o também o Abade Beneditino Marmion (1858-1923) que foi,
provavelmente, o maior escritor da espiritualidade do século XX. Ao ver
a obra do Abade Marmion, o Santo Padre Bento XV disse: "leiam isto:
é a pura doutrina da Igreja". Nos seus escritos, o Abade Marmion refere
claramente que, para que Nosso Senhor pudesse ser verdadeiramente um membro da
nossa raça humana, um Filho de Adão, um «Filho do
Homem», Ele estava totalmente dependente do facto de a Nossa
Mãe Santíssima ter respondido «Sim» ao Anjo, quando
este Lhe perguntou se Ela consentia em ser a Mãe de Jesus Cristo,
"verdadeiro Deus e verdadeiro Homem". Evidentemente que Nosso Senhor poderia
ter-Se tornado Homem pelo Seu próprio Poder, sem a
intervenção de Nossa Senhora. Poderia simplesmente ter assumido a
natureza humana a partir do nada e aparecer diante de nós
já como um homem feito. Mas, se Ele o tivesse feito, teria sido, por assim dizer,
como que um alienígena de outro planeta,
caído na Terra. Teria sido, portanto, impossível
olhar para Ele e vê-Lo fazendo parte da nossa natureza humana.
Teria o aspecto de um homem, caminharia como um homem, falaria como um
homem
Mas nós nunca poderíamos considerá-Lo como
pertencendo verdadeiramente à nossa família humana, à
linhagem do nosso sangue, à nossa raça humana. Nunca
poderíamos tê-Lo considerado como um verdadeiro descendente
físico dos nossos primeiros pais, Adão e Eva. Não
teríamos tido, enfim, qualquer relação de
parentesco com a Sua humanidade. Para que Nosso Senhor Se tornasse um parente nosso,
verdadeiramente pertencente à nossa família humana que tanto
precisava de Redenção, foi-Lhe absolutamente necessário
que viesse a nascer de uma filha de Adão e Eva; e essa "filha" foi a
Puríssima e Imaculada sempre Virgem Maria. Ela foi absolutamente
essencial. Quis Deus depender de Nossa Senhora, para que Nosso Senhor
Jesus Cristo pudesse a Si mesmo chamar-Se "Filho do Homem". E como
salienta o Abade Marmion parece que o nome de "Filho do Homem" era para
Nosso Senhor o mais querido ao Seu Sacratíssimo Coração
durante a Sua vida na terra. Por isso o Abade Marmion explica ter sido esta a
designação que Ele mais usou, referindo-Se a Si próprio:
"Filho do Homem". Do mesmo modo, a Mensagem de Fátima ajuda-nos a
lembrar o quanto dependemos de Nossa Senhora. Recorda-nos que a
devoção a Nossa Senhora, e particularmente ao Seu
Coração Imaculado, não é algo de periférico
na nossa Fé, nem alguma devoçãozinha mínima e
suplementar. Não! Nosso Senhor fez da devoção ao Imaculado
Coração de Maria uma condição
incontornável para a conversão da Rússia e para ser
concedido ao mundo um período de Paz. O reforço de pontos-chave da
Doutrina Na Mensagem de Fátima podemos
também ver reforçados os dogmas fundamentais da nossa
Fé. Quando Nossa Senhora apareceu em
Fátima:
- Falou da doutrina do Céu,
- Falou da doutrina do Inferno,
- Falou da doutrina do Purgatório,
- Falou da doutrina da Divina Eucaristia,
- Falou da doutrina do sacramento da
Penitência.
E, indirectamente, a Senhora falou ainda da doutrina do
Reinado Social de Jesus Cristo mas reforçando o ensino
tradicional do Santo Padre de que existe uma única e verdadeira Igreja,
fora da qual não há salvação, e de que as
Nações e os seus Governos a devem reconhecer como tal, bem como o
poder indirecto da Igreja acima do próprio Estado e da sociedade civil.
Tudo isto está implícito no pedido de Nossa Senhora para
que o Papa consagre a Rússia ao Seu Imaculado Coração. Primeiro, o Céu. A 13 de Maio de 1917, quando a Lúcia perguntou
"De onde é Vossemecê?" a Senhora respondeu "Sou do
Céu". Nossa Senhora está no Céu, em corpo e alma. E
o Céu é um local, um verdadeiro lugar, e não apenas um
estado de espírito. E, de acordo com a Mensagem, é um lugar para
onde nós só iremos se vivermos a vida sacramental da Graça
santificante, como membros do Corpo Místico de Cristo que é a
Igreja Católica. Nossa Senhora recordou-nos também a doutrina do
Inferno. Que o Inferno existe. Que é um lugar; e que há
almas de pessoas que vão para lá, já para lá
têm ido, e lá estão agora. Decerto Nossa Senhora não
concordava com o teólogo progressista Hans urs von Balthasar que
especulava que "o Inferno existe, mas é (e está) vazio". Não. Nosso Senhor disse: «a Verdade te
libertará». E o reforço de Nossa Senhora acerca da doutrina
do Inferno liberta-nos de todos os erros de von Balthasar e dos seus
seguidores, quem quer que eles possam ser. Servindo-se de um modo ainda mais dramático, Nossa
Senhora não se contentou apenas em falar sobre a
realidade do Inferno a crianças tão pequenas. No dia 13 de Julho
de 1917, Nossa Senhora de Fátima mostrou aos três pastorinhos a
terrível visão do Inferno. Tal é o relato da Irmã Lúcia nas suas
Memórias: «Nossa Senhora ...abriu de novo as
mãos, como nos dois meses passados. O reflexo pareceu penetrar a terra,
e vimos como que um mar de fogo. Mergulhados nesse fogo, os demónios e
as almas, como se fossem brasas transparentes e negras, ou bronzeadas, com
forma humana, que flutuavam no incêndio, levadas pelas chamas que delas
mesmas saíam juntamente com nuvens de fumo, caindo para todos os lados,
semelhante ao cair das faúlhas nos grandes incêndios, sem peso nem
equilíbrio, entre gritos e gemidos de dor e desespero, que horrorizava e
fazia estremecer de pavor. (Devia ter sido ao deparar-me com esta vista, que
dei esse "ai!" que dizem ter-me ouvido). Os demónios distinguiam-se por
formas horríveis e asquerosas de animais espantosos e desconhecidos, mas
transparentes como negros carvões em brasa. Esta vista foi um momento. E
graças à nossa boa Mãe do Céu, que antes nos tinha
prevenido com a promessa de nos levar para o Céu (na primeira
aparição)! Se assim não fosse, creio que teríamos
Então Nossa Senhora disse-lhes:
«Vistes o Inferno, para onde
vão as almas dos pobres pecadores. Para as salvar, Deus quer estabelecer
no mundo a devoção ao Meu Imaculado
Coração.»
Tal foi a visão aterradora dada a conhecer aos pastorinhos. A Irmã Lúcia disse muito claramente que «Os demónios distinguiam-se das almas dos condenados». Portanto, isto demonstra que a teoria de von Balthasar de que o Inferno existe, mas vazio; ou, em alternativa, que "sabemos que existem demónios no Inferno, mas não sabemos se, na verdade, há seres humanos no Inferno" é completamente falsa. Há demónios no Inferno, e há almas de pessoas no Inferno. Foi essa visão que deu aos pastorinhos a Graça e a coragem de fazerem sacrifícios heróicos para a salvação das almas.
Nossa Senhora reforçou ainda os ensinamentos acerca
do Purgatório. A 13 de Maio de 1917, Lúcia perguntou a Nossa
Senhora por duas amigas que tinham morrido há pouco. Perguntou a Lúcia: «A Maria das Neves
já está no Céu?» (era uma rapariga que tinha
falecido por volta dos 16 anos). Nossa Senhora respondeu: «Sim, já
está no Céu». A seguir, Lúcia perguntou por uma outra sua amiga
que tinha morrido entre os 18 e os 20 anos de idade: «E a
Amélia?» Nossa Senhora respondeu: «ela ainda vai ficar
no Purgatório até ao fim do mundo.». Tal afirmação de Nossa Senhora vai ainda
contra as falsas crenças protestantes que não acreditam no
Purgatório. Só com esta asserção «ela
ainda vai ficar no Purgatório até ao fim do mundo» ,
Nossa Senhora está a dizer aos Protestantes: "a vossa doutrina
protestante que rejeita o Purgatório é falsa". Nossa Senhora reforçou a doutrina do Sacramento
da Confissão, ao estabelecer a confissão sacramental como
condição necessária às almas para cumprirem o que
era requerido na devoção dos Cinco Primeiros Sábados. E uma vez mais, por este meio, Nossa Senhora está a
dizer aos nossos amigos Protestantes: "a vossa doutrina protestante que rejeita
o Sacramento da Confissão é falsa". Vejamos agora a Divina Eucaristia. As aparições de Fátima não
só reforçam a doutrina da Eucaristia como também salientam
o dever de reverência diante da Divina Eucaristia
Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo. Em 1916, um ano antes de Nossa Senhora ter aparecido em
Fátima, os pastorinhos Jacinta, Francisco e Lúcia foram por
três vezes favorecidos com a aparição de um Anjo, precursor
das visitas de Nossa Senhora. A terceira e última destas
aparições angélicas deu-se no Outono de 1916, com o "Anjo
da Eucaristia". Nessa altura, quando veio administrar a Sagrada Eucaristia
aos três pastorinhos, o Anjo não lhes apareceu todo Ele sorrisos,
a dizer-lhes: "Pastorinhos, eu estou aqui para vos dizer que esta Eucaristia
tem o propósito de vos transmitir o sentido de comunidade e
solidariedade, de promover o diálogo e a interrelação
entre as pessoas, e para celebrar a dignidade inerente à pessoa humana
através da unidade na diversidade". Não foi nada disso que aconteceu! Lúcia diz-nos que era meio-dia, e que os três
pastorinhos estavam prostrados por terra, recitando as orações de
reparação que o "Anjo da Paz" lhes ensinara na Primavera
anterior. Escreve a Lúcia: «Não sei quantas vezes
tínhamos repetido essa oração, quando vemos brilhando
sobre nós uma luz desconhecida. Erguemo-nos
e vemos o Anjo, tendo
na mão esquerda um Cálice sobre o qual estava suspensa uma
Hóstia, da qual caíam algumas gotas de sangue dentro do
Cálice. «Deixando o Cálice e a
Hóstia suspensos no ar, o Anjo ajoelhou-se junto de nós e,
prostrando-se igualmente por terra, repetiu por três vezes connosco esta
oração: «Santíssima Trindade, Pai,
Filho e Espírito Santo, adoro-Vos profundamente, e ofereço
-Vos o Preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus
Cristo, presente em todos os Sacrários da terra, em
reparação dos ultrages, sacrilégios e indiferenças
com que Ele mesmo é ofendido. E pelos méritos infinitos do Seu
Sacratíssimo Coração e do Coração Imaculado
de Maria, peço-Vos a conversão dos pobres
pecadores.» Lúcia escreve que o Anjo se ergueu, tomou de novo
nas mãos o Cálice e a Hóstia, e administrou a
Comunhão aos três pastorinhos, colocando a Sagrada Hóstia
sobre a língua da Lúcia e dividindo o Sangue do Cálice
pelo Francisco e pela Jacinta, dizendo ao mesmo tempo: «Tomai e bebei o Corpo e o Sangue de
Jesus Cristo, horrivelmente ultrajado pelos homens ingratos. Reparai os seus
crimes e consolai o vosso Deus.» A seguir, conta a Lúcia, o Anjo «prostrou-se
de novo em terra, e repetiu connosco outras três vezes a mesma
oração: Santíssima Trindade, etc.. E
desapareceu.» Será possível que o
Céu envie aos homens um ensinamento mais forte do que este, em como a
Divina Eucaristia deve ser reverenciada e venerada? Por meio das suas
atitudes e acções, o Anjo ensinou não só os
três pastorinhos de Fátima como também todo o século
XX e todas as nações do mundo até ao fim dos tempos. Todos os gestos do Anjo em relação à
Eucaristia estavam em perfeita conformidade com a tradição, os
ensinamentos e a prática da Igreja:
- O Anjo pôs-se de joelhos, prostrado com a face por
terra. Tal atitude significa o reconhecimento da Soberana Majestade e da
Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo, verdadeiramente presente na Eucaristia.
Tudo isto nos lembra a profunda reverência que é devida ao
Santíssimo Sacramento.
- O Anjo recitou orações de
reparação pelas blasfémias e sacrilégios contra o
Santíssimo Sacramento, como se predissesse os inumeráveis
ultrages que seriam praticados contra o Santíssimo Sacramento,
especialmente depois de 1960.
- O Anjo rezou, por intermédio do
Coração Imaculado de Maria, pela conversão dos pobres
pecadores, especialmente podemos inferi-lo do contexto daqueles
que pecam contra a Divina Eucaristia.
- O Anjo não deu à Lúcia a
Comunhão na mão.
Os três pastorinhos de Fátima sabiam que o
Anjo tinha vindo para os ensinar, e que o seu exemplo devia ser seguido. Lúcia escreve: «Levados pela força do
sobrenatural que nos envolvia, imitávamos o Anjo em tudo, isto é,
prostrando-nos como ele e repetindo as orações que ele dizia...
Nós permanecemos na mesma atitude, repetindo sempre as mesmas
palavras.» Por consequência, parece que o Anjo era um mensageiro
de Deus, vindo do Céu, para nos dar o exemplo da profunda
reverência que por todos nós é devida ao Santíssimo
Sacramento. E convém lembrar de novo a doutrina da Divina
Eucaristia é dogma rejeitado tanto por Protestantes como por Judeus,
Muçulmanos, Hindus, Budistas. É o Céu que está a
dizer a todas estas religiões feitas pelo homem que as suas doutrinas
estão erradas, que as suas crenças são falsas. Os Cinco Primeiros Sábados Antes de entrar no assunto desta secção que
aborda os Cinco Primeiros Sábados, gostaria de fazer uma
observação. Há uma tendência nos dias de hoje
à luz daquilo que podemos chamar certas "sensibilidades
ecuménicas" de esbater as duras Verdades Católicas em
favor de uma orientação ecuménica. Esta ideia nova diz
que, no contacto com os não-Católicos, não
deveríamos prender-nos muito àqueles pontos que nos
dividem, mas antes pô-los de parte e concentrar-nos
naquilo que nos une. Pelo contrário, nós bem vemos que
não é esta a abordagem do assunto que a Nossa Mãe
Santíssima fez em Fátima. Nossa Senhora reconheceu que o Seu
principal dever é ensinar a Verdade. E Nossa Senhora,
- ao valorizar o Terço,
- ao valorizar a devoção ao Seu Imaculado
Coração,
- ao valorizar o uso do Escapulário castanho,
- ao valorizar a existência do
Purgatório,
- ao valorizar a autoridade do Papado,
- ao valorizar o Sacramento da Confissão,
- ao valorizar a Divina Eucaristia que é o Corpo,
Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo,
Nossa Senhora está a
valorizar, precisamente, aqueles pontos que SEPARAM os Católicos dos
Protestantes, e que INDIVIDUALIZAM os Católicos em relação
a qualquer outra religião à face da terra. Pode algum de nós afirmar que, na nossa abordagem,
sabemos tratar melhor deste assunto do que a Mãe de Deus? E a Mensagem de Fátima não salienta apenas os
pontos que nos separam e individualizam; também explica claramente,
segundo um raciocínio objectivo, que as pessoas que não acreditam
nestas verdades, sobretudo aquelas que recusam prestar à Mãe do
Céu a honra que Lhe é devida, são culpadas do crime de
blasfémia. Nosso Senhor disse isto mesmo, de uma maneira delicada mas
firme, ao explicar os Cinco Primeiros Sábados de
Reparação. A devoção a Nossa Senhora dos Cinco Primeiros
Sábados não era algo de novo. Não se tratou de uma
inovação. E novamente vemos que, no Seu apelo à
devoção dos Cinco Primeiros Sábados, Nossa Senhora
demonstrava um profundo respeito pela tradição da Igreja. Em 1892, o Santo Padre Leão XIII concedeu uma
indulgência plenária a todos os Fiéis que oferecessem
Quinze Sábados seguidos em honra de Nossa Senhora do
Rosário. Mais tarde, o Papa S. Pio X concedia indulgência
plenária àqueles que cumprissem Doze Primeiros
Sábados em honra de Nossa Senhora. Logo a seguir, a 13 de Junho de 1912, o mesmo Papa S. Pio X
concedia novas indulgências aos Fiéis que cumprissem a
devoção de Reparação a Nossa Senhora nos
Primeiros Sábados de cada mês. E precisamente cinco anos depois desse dia,
em Fátima, a 13 de Junho de 1917, Nossa Senhora mostrava aos três
pastorinhos o Seu Imaculado Coração «cercado de
espinhos que O pareciam cravar» o qual pedia
reparação. Ao apelar para a prática dos Cinco Primeiros
Sábados, Nossa Senhora retomou uma devoção que já
tinha uma tradição na Igreja, simplificou-a e deu-lhe uma
eficácia muito maior. A 10 de Dezembro de 1925, quando Lúcia era ainda uma
postulante de 18 anos em Pontevedra (Espanha), Nossa Senhora apareceu-lhe
acompanhada pelO Menino Jesus. Disse-lhe Jesus, Nosso Senhor: «Tem pena do Coração de
tua Mãe Santíssima, que está coberto de espinhos que os
homens ingratos a todos os momentos Lhe cravam, sem haver quem faça um
Acto de Reparação para os tirar.» O Menino Jesus aflige-Se com estes pecados contra Sua
Mãe. Então, a nossa Mãe Santíssima diz a
Lúcia: «Olha, Minha filha, o Meu
Coração cercado de espinhos que os homens ingratos a todos os
momentos Me cravam, com blasfémias e ingratidões. Tu, ao menos,
faz por Me consolar, e diz que a todos aqueles que, durante cinco meses, no
primeiro sábado, se confessarem recebendo a Sagrada Comunhão,
rezarem um Terço e Me fizerem 15 minutos de companhia meditando nos 15
Mistérios do Rosário com o fim de Me desagravar, Eu prometo
assistir-lhes à hora da morte com todas as graças
necessárias para a salvação...» Anos mais tarde, o Padre Gonçalves, confessor e
director espiritual da Irmã Lúcia, haveria de lhe pedir que
fizesse algumas perguntas a Nossa Senhora relativamente aos Cinco Primeiros
Sábados. E uma das perguntas era: «Porque hão-de ser cinco
sábados, e não nove, ou sete em honra das Dores de Nossa
Senhora?» Durante a revelação de Nosso Senhor em Tuy
(Espanha), a 29 de Maio de 1930, a Irmã Lúcia fez-Lhe essa
pergunta. E esta foi a resposta que lhe deu o Céu: «Minha filha, o motivo é
simples: são cinco as espécies de ofensas e blasfémias
proferidas contra o Imaculado Coração de Maria:
- Blasfémias contra a Imaculada
Conceição;
- Blasfémias contra a Sua (Perpétua)
Virgindade;
- Blasfémias contra a Sua Maternidade Divina,
recusando, ao mesmo tempo, recebê-La como Mãe dos Homens;
- As blasfémias daqueles que procuram
publicamente infundir, no coração das crianças, a
indiferença, o desprezo ou até o ódio para com esta
Imaculada Mãe;
- As ofensas daqueles que A ultrajam directamente nas
Suas sagradas imagens.»
Ora é precisamente a isto que eu me quero referir
quando digo que, de um modo indirecto e segundo um raciocínio objectivo,
Nosso Senhor acusou os membros de religiões não-Católicas
de serem culpados de blasfémia contra o Imaculado Coração
de Maria. Observemos de novo estes cinco tipos de
ofensas: 1) Blasfémias contra a Imaculada
Conceição; A maioria dos Protestantes, bem como
maioria dos Ortodoxos da Igreja do Oriente, não acreditam na Imaculada
Conceição de Nossa Senhora. Nem, evidentemente, os Judeus, os
Muçulmanos, os Hindus, os Budistas, os maçons, os comunistas, os
socialistas, os humanistas seculares, e tantos outros. 2) Blasfémias contra a Sua
Perpétua Virgindade; Isto também diz respeito à
maior parte dos Protestantes, e aos Judeus, Muçulmanos, Hindus,
Budistas, a grande maioria dos quais não acredita na Perpétua
Virgindade de Nossa Senhora. E, para dizer a verdade, também hoje muitos
Católicos não acreditam na Sua Perpétua Virgindade. 3) Blasfémias contra a Sua
Maternidade Divina, recusando, ao mesmo tempo, recebê-La como Mãe
dos Homens; Como sabemos, tanto os Muçulmanos,
como os Judeus, Hindus e Budistas rejeitam esta doutrina, especialmente por
não acreditarem que Jesus Cristo é Deus. E Nosso Senhor avisou:
«Ninguém vem ao Pai senão por Mim.» 4) As blasfémias daqueles que
procuram publicamente infundir, no coração das crianças, a
indiferença, o desprezo ou até o ódio para com esta
Imaculada Mãe; E de novo é esta a
situação dos Protestantes, Judeus, Muçulmanos, Hindus,
Budistas, e de muitas outras falsas religiões. Os membros destas
religiões ensinam os seus filhos a não ligarem
importância a Nossa Senhora nem ao Seu Imaculado
Coração. Repare-se ainda que não se trata de coisa
insignificante aos olhos de Nosso Senhor. Ele chama a isso
blasfémia, e apela aos Católicos para que se
ajoelhem e façam reparação por estes grandes pecados
que são espinhos cravados no Coração Imaculado de
Nossa Senhora. 5) As ofensas daqueles que A ultrajam
directamente nas Suas sagradas imagens; Isto diz respeito àqueles que, na
realidade, chegaram ao ponto de destruir as Suas imagens ou de troçar
delas, ou àqueles Protestantes que acusam os Católicos de
idolatria, por terem imagens de Nossa Senhora em lugar de honra nas suas
casas. Para além do chamamento à
penitência, trata-se de uma condenação de todas as outras
religiões, à excepção do Catolicismo. Como vemos, Nosso Senhor não
está a lidar com este assunto seguindo a moderna abordagem
ecuménica. Ele não realça aqueles pontos que nos
unem às falsas religiões. Realça, sim, aqueles
pontos que nos separam dos não-Católicos. Creio que,
ao agir deste modo, Nosso Senhor nos está a dizer que esses pontos
são, precisamente, muitíssimo mais importantes do que uma
qualquer e superficial unidade ecuménica. Nosso Senhor chama a atenção
para o facto de tais blasfémias contra o Imaculado Coração
de Maria não deverem ser encaradas levianamente. Elas são, na
realidade, pecados contra a Fé. Tradição de
Reparação Nesta altura, desejo voltar a referir um aspecto de que
já falei antes. Nossa Senhora de Fátima, em todas as Suas
acções, mostrou sempre um profundo respeito pela
tradição religiosa; e que os Cinco Primeiros Sábados eram,
e continuam a ser, parte da nossa devoção tradicional.
Portanto, do ponto de vista doutrinário, Nossa Senhora não veio
ensinar algo de novo. Na verdade, Ela foi em tudo obediente ao Concílio
Vaticano Primeiro que definiu como um artigo de Fé de fide
que «o significado da Sagrada Doutrina é
imutável». Ensinou o Concílio Vaticano I:
«O significado dos Sagrados Dogmas,
que deve ser sempre preservado, é aquele que a Santa Madre Igreja
determinou. E não é permissível, nunca, qualquer
afastamento que seja em nome de um conhecimento mais aprofundado.»
1

Assim, pelo que diz respeito à doutrina do Purgatório, à doutrina da Divina Eucaristia, à doutrina da confissão, à doutrina que define a existência de uma única e verdadeira Igreja, fora da qual não há salvação, o Concílio Vaticano I ensinou que o signficado destas doutrinas não pode mudar nunca. E podemos ver que Nossa Senhora era totalmente fiel a isto.
Além disso, em Fátima, Nossa Senhora demonstrou seguir acontinuidade em relação às revelações especiais dadas pelo Céu à Igreja durante o século XIX, aquando das Suas aparições em Lourdes, em La Salette, ou das manifestações de Nosso Senhor à Irmã Marie de Saint-Pierre, em França, na década de 1840. É sempre a mesma mensagem urgente.
Quando Nossa Senhora apareceu em Lourdes, em 1858, exclamou: «fazei penitência, fazei reparação.»
Já quando Nossa Senhora tinha aparecido em La Salette, em 1846, pedira: «fazei penitência, fazei reparação.» E nessa altura a Senhora avisou em La Salette que a França iria ser castigada fundamentalmente por dois pecados: pelos pecados contra a profanação dos Domingos (pecados contra o Terceiro Mandamento da Lei de Deus) e por invocar o Santo Nome de Deus em vão (pecados contra o Segundo Mandamento).
Isto também corresponde, de um modo muito especial, às revelações, aprovadas pela Igreja, dadas por Nosso Senhor à Irmã Marie de Saint-Pierre na década de 1840. A Irmã Marie de Saint-Pierre era uma freira Carmelita, de França, que morreu por volta dos vinte anos (uma história fascinante, mas que não temos tempo de contar em pormenor).
Nessas mensagens (tal como em Fátima), Nosso Senhor apelou à grande necessidade de reparação. E em particular Nosso Senhor pediu reparação para com a Sua Sagrada Face. Nosso Senhor deu então à Irmã Marie de Saint-Pierre uma oração especial, chamada A FLECHA DE OURO (em reparação da blasfémia), que irei passar a recitar para todos vós. Foi a 24 de Novembro de 1843 que Nosso Senhor disse à Irmã Marie de Saint-Pierre:
«A terra está coberta de crimes. A violação dos Primeiros Três Mandamentos da Lei de Deus irritaram o Meu Pai; proferem-se blasfémias contra o Santo Nome de Deus (2.º Mandamento) e os Dias Santos do Senhor são profanados (3.º Mandamento), o que enche a medida de todas as iniquidades. Estes pecados ergueram-se até ao trono de Deus e provocaram a Sua ira, a qual em breve explodirá, se a Sua justiça não for aplacada. Nunca, em tempo algum, alcançaram estes crimes uma tal dimensão.»2
Passava-se isto na década de 1840, o que nós consideramos "os bons velhos tempos." E tudo está muitíssimo pior agora.
Durante estas revelações, Nosso Senhor pediu que se formasse uma associação de Reparação à Sua Sagrada Face, e ainda ensinou a oração A FLECHA DE OURO para a reparação contra a blasfémia:
«Que o Santíssimo, Sacratíssimo, Adorabilíssimo e Misteriosíssimo Nome de Deus seja louvado, santificado, amado, adorado e glorificado, no Céu, na Terra e no Inferno, por todas as criaturas de Deus, e pelo Sagrado Coração do Nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo, no Santíssimo Sacramento do Altar. Amen.»3
Por essa altura, um dos maiores promotores desta Devoção da Sagrada Face era o "Santo de Tours", Léo DuPont, que pendurou uma enorme imagem da Sagrada Face na sua sala de estar, diante da qual acendeu Santos Óleos. Foram tantos os milagres operados na sala de estar de Léo DuPont que o Venerável Papa Pio IX chamou a DuPont «o obreiro do sobrenatural do século XIX».
Agora é Nossa Senhora de Fátima que vem relembrar esta sólida "tradição": este imutável e urgente apelo à Reparação.
E as revelações de Nosso Senhor à Irmã Marie de Saint-Pierre não pediam apenas Reparação relativamente ao 2.º e ao 3.º Mandamentos como pedirá Nossa Senhora em La Salette , mas também Reparação pelos pecados contra o Primeiro Mandamento. Ora nós sabemos que o Primeiro Mandamento é: «Eu Sou o Senhor vosso Deus. Não tereis deuses estrangeiros (falsos deuses) diante de Mim.»; e que a nossa teologia católica tradicional nos diz que os pecados contra a Fé, especialmente o pecado da heresia, são pecados contra o Primeiro Mandamento.
Por isso nós não somos chamados a esboçar um sorriso ou a olhar com bonomia as falsas crenças dos não-Católicos; somos, sim, chamados a cair de joelhos e a fazer Reparação por esses pecados contra a Fé, esses pecados contra o Primeiro Mandamento. E esses pecados de heresia, de onde provêm as cinco blasfémias contra o Imaculado Coração de Maria, foram enunciados por Nosso Senhor em Tuy, a 29 de Maio de 1930.
Fátima vs. o "espírito de Assis"
Assim, em conclusão, eu creio que o Céu quer que a Mensagem de Nossa Senhora de Fátima esteja no centro da nossa visão do mundo. Seja o que for que aconteça na Igreja ou no mundo, nós o julgaremos bom ou mau, apropriado ou não, com base naquilo que está ou não está em conformidade com as palavras de Nossa senhora em Fátima.
Em Fátima, a Senhora reforçou pontos-chave da doutrina sobre a Fé, centrando-se naqueles pontos de doutrina que nos separam dos não-Católicos, para demonstrar que o mais importante é a Verdade. Ela veio também instruir-nos, especialmente através dos Cinco Primeiros Sábados e em conformidade com as revelações dadas em Lourdes, em La Salette e à Irmã Marie de Saint-Pierre da necessidade de ajoelhar e fazer Reparação pelos pecados dos homens, em particular pelos pecados contra a Fé que são uma parte e uma parcela dos credos não-Católicos, especialmente pelo que respeita ao Seu Coração Imaculado.
A Senhora não veio ensinar uma doutrina nova, nem qualquer compreensão modernizada da doutrina que, de qualquer outro modo que fosse, nos fizesse reinterpretar os ensinamentos da Santa Igreja Católica diferentemente do modo como têm sido ensinados durante 2.000 anos.
Disse-nos Ela que o mundo só alcançaria a Paz através da obediência ao Seu pedido de Consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria, realizada não por Católicos unidos a falsas religiões, em orações comuns pela paz; essas religiões, a própria Senhora as proclamou como blasfémias contra Ela, pelo facto de Nela não acreditarem. Na realidade e isto é triste de se dizer no grande encontro de oração em Assis em 1986, quando os Católicos, juntamente com membros de falsas religiões, oraram publicamente pela causa da Paz, absolutamente ninguém rezou o Santo Terço. E isto a despeito do facto de que o Terço é a oração específica dada por Nossa Senhora como uma condição de alcançar a paz. Do mesmo modo, naquele dia de oração, o Imaculado Coração de Maria não foi honrado nem sequer invocado.
Ora isto é um afastamento radical do plano traçado por Nossa Senhora. Com efeito, eu penso que tais assembleias inter-religiões não só hão-de fracassar no sentido de produzir alguns bons frutos, como também podem tornar-se a causa de grandes castigos. E digo-o não apenas segundo a minha própria autoridade, mas segundo a autoridade de um dos mais eminentes Cardeais do século XX, o Senhor Cardeal Mercier, da Bélgica.
Em 1918, passado só um ano depois das aparições de Nossa Senhora em Fátima, o ilustre Cardeal Mercier afirmava que a Primeira Guerra Mundial não era mais do que a punição devida pelo crime dos homens ao colocarem a única e verdadeira religião ao mesmo nível dos falsos credos (o que é precisamente aquilo que fazem estes novos encontros pan-religiosos, em contradição flagrante com 2.000 anos de doutrina católica). Numa carta pastoral de 1918 intitulada "A Lição dos Acontecimentos", o Cardeal Mercier disse:
«Em nome dos Evangelhos, e à luz das Encíclicas dos últimos quatro Papas, Gregório XVI, Pio IX, Leão XIII e Pio X, eu não hesito em afirmar que este indiferentismo religioso que põe ao mesmo nível a religião de origem divina e as religiões inventadas pelos homens, de modo a incluí-las no mesmo cepticismo, é a blasfémia que atrai castigos sobre a sociedade, muito mais do que os pecados dos indivíduos e das famílias.»4
Vemos, portanto, que as afirmações do Cardeal Mercier estão em perfeita continuidade com a consistente doutrina dos Papas através dos séculos, e em perfeita harmonia com uma visão do mundo baseada em Fátima.
Vou, pois, terminar com as mesmas palavras que disse mais acima. E tal como o grande Milagre de 13 de Outubro de 1917 em especial com o sol a dançar no céu e, de repente, a precipitar-se sobre a terra que, de tão espectacular, tornava impossível que os olhos dele se desviassem, a Mensagem de Fátima tem, em si própria, uma tal magnitude, e uma tão grande importância e centralidade que não devemos nunca afastar os nossos olhos de Fátima, que nunca devemos afastar os nossos olhos dos de Nossa Senhora, e que não poderemos nunca permitir-nos qualquer distracção, seja ela qual for, que nos desvie do olhar da Nossa Mãe Santíssima.
Footnotes:
1. Vatican I, Session III, Chap. iv, Faith and Reason.
2. Scalan, The Holy Man of Tours (Tan Books), p.122.
3. P. Janvier, Life of Sister Saint-Pierre, with an approbation by Most Rev. Charles Colet, Archbishop of Tours, (John Murphy & Co, Baltimore, 1884) p.114.
4. Citação tirada de The Kingship of Christ and Organised Naturalism pelo Padre Denis Fahey (Regina Publications, June, 1943), p.36. Notas de rodapé tal como foram citadas na Carta Pastoral do Cardeal Mercier, 1918, The Lesson of Events.
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